Indústria naval emerge em PE
NAVIOS Setor, que naufragou no País nos anos 80, ressurge em Suape com 4 estaleiros, que vão gerar mais de 11 mil empregos diretos
Pernambuco desponta no novo mapa da indústria naval brasileira, capitaneando a descentralização do setor no País, antes encravado no Rio de Janeiro. O Complexo de Suape foi o local escolhido para abrigar o cluster naval do Estado, que já nasceu grande, com a implantação do Estaleiro Atlântico Sul (EAS) - maior unidade do Hemisfério Sul. Além do EAS, estão projetados R$ 1,7 bilhão em investimentos na construção de outros três estaleiros (Promar, Construcap e Galíctico).
O polo naval é uma das âncoras do processo de reindustrialização de Pernambuco, com o surgimento de novos setores na matriz econômica do Estado. Navios de grande porte, plataformas de petróleo e sondas de perfuração serão construídas numa região onde, secularmente, predominava o cultivo de cana-de-açúcar. Juntos, os quatro estaleiros do cluster vão gerar 11.750 empregos diretos.

Resultado de um investimento de R$ 2 bilhões das empresas Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, PJMR Empreendimentos e da sul-coreana Samsung, o Atlântico Sul foi o primeiro estaleiro a ser construído no Brasil para alavancar o renascimento da indústria naval. Nos anos 70, o País ostentava o segundo lugar no ranking mundial do setor, atrás apenas do Japão. Nas décadas de 80 e 90 o setor praticamente naufragou e agora emerge graças à decisão do governo brasileiro de substituir as importações de embarcações e equipamentos offshore (de exploração de petróleo no mar) por produtos verde-amarelo. Capitaneado pela Transpetro, o Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef) encomendou 49 navios aos estaleiros nacionais.
Hoje, o EAS ostenta a maior carteira de encomendas do Brasil, estimada em US$ 8,1 bilhões. São 22 petroleiros suezmax encomendados pela Transpetro, além do casco da plataforma P-55 e de sete navios-sonda para exploração de petróleo no pré-sal. O desafio para o Atlântico Sul é acelerar a entrega das encomendas e reduzir os custos de produção dos navios.O petroleiro João Cândido, por exemplo, deveria ser entregue em setembro
de 2010, mas vai ficar para a segunda metade deste ano. Com o atraso no cronograma, a
embarcação vai totalizar três anos para ser concluída.
Na avaliação do secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, Geraldo Júlio,
o diferencial do Estado é ter um polo naval diversificado. Em Suape serão fabricados navios
de todos os portes, plataformas, módulos e sondas. “Os estaleiros vão se complementar. O
Atlântico Sul vai produzir os cascos e o Construcap os módulos das plataformas”, exemplifica.
Odiretor comercial do estaleiro Construcap S.A, Reginaldo Silva, diz que a estimativa é construir a planta naval em 18 meses. A indústria vai consumir investimento de US$ 450 milhões e gerar 2.250 empregos diretos. “Teremos capacidade para fazer três topsides (conjunto de módulos para uma plataforma) a cada três anos”, acredita. Os topsides são estruturas que equipam as plataformas para funcionar como verdadeiras refinarias em alto-mar.
Oestaleiro Promar, que recentemente conseguiu liberação da licença ambiental, já conta com uma encomenda de oito navios gaseiros para a Transpetro, no valor de US$ 536 milhões.O empreendimento está orçado em R$ 300 milhões e vai gerar 1.500 empregos na operação.
Pernambuco também quer captar uma unidade de reparação naval para atender à frota
nacional da Transpetro, que hoje precisa ir para Cingapura ou Coreia do Sul para realizar esses serviços.Ogoverno do Estado assinou protocolo de intenção com o grupo espanhol
Galíctico, que vai investir US$ 440 milhões na construção de uma unidade de reparação naval em Suape.
A decisão do governo Federal de ressuscitar a indústria naval no País, estimulou Pernambuco a criar condições para transformar o Estado em um dos novos endereços dessa retomada. A criação de um programa de benefícios fiscais e definição de uma área destinada à implantação de estaleiros e indústrias da cadeia produtiva foram as principais
estratégias para se firmar na disputa de empreendimentos com outros Estados brasileiros.
O Programa de Desenvolvimento da Indústria Naval de Pernambuco (Prodinpe) beneficia
tanto a construção de estaleiros quanto a instalação de empresas da cadeia produtiva do setor, por meio da isenção do pagamento de ICMS na construção dos navios e no fornecimento de matéria-prima pelas indústrias aos estaleiros locais. Além dos estaleiros, o governo também prospecta empresas especializadas em megablocos e sondas para consolidar o polo naval.
Na rota do mercado do petróleo
O ano de 2013 vai marcar a história econômica de Pernambuco, com o processamento do primeiro barril de petróleo da Refinaria Abreu e Lima (Rnest). Desde os anos 50, o Estado acalentava o sonho de sediar uma unidade de refino. A decisão da Petrobras de erguer
o empreendimento no Complexo de Suape, após 30 anos sem novas implantações, foi estratégica. O Estado tem excelente localização geográfica, um porto com infraestrutura adequada, uma zona industrial estruturada e o segundo maior mercado consumidor do Nordeste.
A Refinaria Abreu e Lima coloca Pernambuco na rota do cobiçado mercado do petróleo e
contribui para globalizar a economia estadual. Do empreendimento de Suape vai sair 18% de todo o óleo diesel consumido no mercado brasileiro. A produção vai atender às regiões Norte e Nordeste, hoje dependentes de importação do combustível.
“Costumo brincar que a Abreu e Lima é uma fábrica de diesel, já que 70% da produção
da unidade será do combustível”, diz o presidente da Rnest, Marcelino Guedes. De cada dez
caminhões com diesel que circularem pelo País, dois serão de Pernambuco. Atualmente, a
obra da refinaria está 35% concluída. Maior projeto da história do Estado, a unidade de refino representa um investimento de R$ 26 bilhões. Quando entrar em operação vai gerar
1.500 empregos diretos, além dos 28 mil no pico da construção e montagem.
A Rnest terá capacidade para processar 230 mil barris de petróleo por dia, que serão transformados em GLP (gás de cozinha), diesel, nafta petroquímica, combustível de navio (bunker) e coque (carvão de petróleo). “Num primeiro momento vamos processar 115 mil barris de petróleo por dia”, adianta Guedes, lembrando que o óleo cru virá da Bacia de Campos, do Campo de Marlim, no Rio. A previsão é de que a unidade entre em testes no próximo ano e opere oficialmente em 2013.
Tanto do lado do governo quanto dos empresários, a discussão é sobre como atrair empresas para adensar a cadeia produtiva do petróleo e garantir a participação de companhias locais como fornecedoras da refinaria. Nessa direção, o governo de Pernambuco criou, no final de 2009, o Fórum Suape Global, que tem como objetivo articular a atração de companhias de bens e serviços das cadeias de petróleo e gás, naval e
offshore para Pernambuco. O programa já conseguiu trazer dez empresas para o Estado.
“A intenção do Fórum não é apenas atrair empresas, mas integrar todos os atores que podem contribuir para desenvolver essas cadeias produtivas no Estado, a exemplo de empresários, universidades, instituições de pesquisa e educação”, destaca o coordenador executivo do Fórum Suape Global, Sérgio Loyo. O Fórum propõe discussões sobre mão de obra, logística, pesquisa e desenvolvimento, mobilidade e tantos outros temas que permeiam a implantação de grandes empreendimentos, a exemplo da refinaria.
TECNOLOGIA
A Refinaria Abreu e Lima será a primeira construída pela Petrobras com capacidade para processar 100% de óleo pesado. Apesar da descoberta de óleo leve na camada do pré-sal, da atual reserva de 14 bilhões de barris do País, 60% é de petróleo pesado. Operando dentro do conceito de Unidade de Alta Performance (UAP), o empreendimento segue padrões internacionais, com baixo consumo energético, uso otimizado da água, baixo custo
de manutenção e alto nível de desempenho.
A unidade também será uma das primeiras a produzir óleo diesel com padrão europeu de teor de enxofre (que polui menos). Enquanto a média do mercado brasileiro é de 500 ppm (partes por milhão), a Abreu e Lima poderá fabricar o combustível com 50 ppm e até 10 ppm. (A.G.)
Fonte: Jornal do Commercio